Quando pensamos em linguagem, a primeira coisa que vem a nossa cabeça é a fala. A fala é o meio mais rápido e eficiente de comunicar-se/expressar-se. O indivíduo só vai expressar o que está construído dentro dele. E, o que é a construção da linguagem? Como ocorre o processo de construção da linguagem na criança? O conhecimento está na interação do indivíduo com o meio. Segundo Piaget esse conhecimento ocorre em 3 grandes etapas: 1- FORMAÇÃO DA INTELIGÊNCIA SENSÓRIO-MOTORA 2- FORMAÇÃO DO PENSAMENTO OBJETIVO-SIMBÓLICO 3-FORMAÇÃO DO PENSAMENTO LÓGICO-CONCRETO (OPERATÓRIO) Como Piaget definiu essas etapas: partindo do principio que inteligência é toda adaptação psíquica frente a situações novas. A partir desse critério ele estudou as reações e adaptações da criança desde seu nascimento, frente a situações novas. PERÍODO SENSÓRIO-MOTOR: é o período de brincar com o exercício motor. 1 mês: ela se relaciona através de reflexos. 2-3 meses: reações circulares primárias - repetiçao de ações motoras que provocam prazer 3-9 meses: reações circulares secundárias - repetição das ações com intenção (característica de inteligência). É nessa repetição que a criança incorporará novos conhecimentos. 9-12 meses: coordenação dos esquemas de conduta - etapa que a criança experimenta os elementos ao seu alcance: agarra, examina, sacode, atira, etc. 12-18 meses: reações circulares terciárias - aqui ela já vai se interessar com o que acontece com os elementos que ela sacudiu, jogou, etc. 18-24 meses: transição do período Sensório-Motor para a representação - a compreensão se desenvolve e começa a ocorrer os primeiros passos do pensamento. Concluindo: nesse período as ações de bater, jogar empilhar passam a ocorrer em caráter lúdico. 2º ANO DE VIDA: nessa etapa começamos a observar um comportamento que identificamos brincadeira que envolve o faz- de- conta, um brincar ou jogar simbolicamente que coincide com as primeiras palavras ou enunciados verbais. O que é essa brincadeira simbólica e da linguagem? É a capacidade de representar, de evocar fatos e objetos ausentes, ou seja, a criança consegue por meio de palavras, gestos ou objetos representar algo que não está presente. É a etapa que ela finge dar mamadeira para a boneca ou tenta relatar verbalmente algo que não está presente. Ou seja a exploração do mundo por meio das ações sensório-motoras de jogar, revirar, bater, dá lugar a uma forma mais complexa de exploração que é a manipulação e organização simbólica desse mesmo mundo. Daí, o simbolismo passa a povoar a vida da criança e trazer transformações importantes. A função simbólica envolve além da linguagem e da brincadeira simbólica, as imagens mentais, a imitação deferida (imitar sem a presença do objeto, geralmente descobrimos do que a criança está "falando") e a resolução de problemas por combinação mental de ações. Aqui a criança pode usar palavras, gestos ou objetos para significar, representar. Aí vem uma pergunta: o brincar começa no simbolismo? O período Sensório-Motor é um brinquedo do exercício motor (jogar, empilhar, etc.). Essas ações ocorrem em caráter lúdico, nele não aparece a representação (simbolismo). O período a partir do 2º ano de vida as ações rotineiras são reproduzidas fora do contexto habitual, ou seja, na presença de objetos que lembrem a ação ou miniaturas que o representam. COMO SE DESENVOLVE O SIMBOLISMO A partir do 2º ANO DE VIDA é que a criança passa a usar os objetos de forma convencional. Aqui a criança começa a imitar o que os outros fazem com as coisas. Ou seja, ela começa a aplicar no objeto, não qualquer ação, mas àquela ligada ao uso apropriado ou convencional do objeto. É a imitação que se torna sistemática e permite novas ações à criança, reproduzindo o que os outros fazem. A partir daqui ela começa a recorrer a miniaturas ou objetos reais para fingir uma ação (por exemplo: pegar uma colher e fingir que está comendo). Então, algumas ações principalmente alimentação, higiene, cuidados, passam a ser sistematicamente reproduzidas. O caráter simbólico dessas ações ainda é primitivo pois elas estão centradas nas ações da própria criança. Quando o sistema simbólico passa a ser sistemático a criança começa a descentralizar, ou seja, ela vai aplicar essas ações em outros personagens (mãe, boneca, amigo, etc). Eles são considerados participantes no jogo simbólico. Aqui o simbolismo deixa de se restringir à criança e passa a se dirigir ao outro. Aqui começa a brincadeira do faz-de-conta, onde a criança consegue distinguir entre ela e outro, entre sua ação e a ação do outro. O adulto passa a ser um parceiro. Com isso a criança mostra que é capaz de simbolizar e de envolver o adulto em seu simbolismo. Por sua vez, o adulto incrementa essa relação usando o instrumento simbólico mais comum: a linguagem. A brincadeira torna-se simbolicamente mais evoluída quando a criança generaliza a ação a outros personagens e com isso ela se tornará mais diversificada. ela passa a atribuir ao outro a capacidade de agir parecida a sua. A criança generaliza não só suas ações mas transpõe também seus sentimentos e desejos, como se eles partissem dos brinquedos. Por exemplo, a criança passa a julgar se a boneca quer ou não comer, pede para ela não chorar, etc. Então a criança passa a coordenar suas ações. Coisas do cotidiano passam a se combinar em seqüências mais complexas e mais próximas das ações reais. Por exemplo, ao invés de só colocar a boneca para dormir, primeiro arruma a cama, põe o colchão, lençol, travesseiro e então deita a boneca. Com isso ela organiza pequenas seqüências de ações coordenadas e fica muito mais tempo ligada àquilo que está brincando. A brincadeira simbólica se tornará verdadeiramente representativa quando a criança começa a usar substitutos simbólicos (materiais) que podem corresponder a gestos, objetos e palavras. Por exemplo, ao colocar o boneco para dormir na cama , caso ela não tenha objetos a disposição, o paninho vira uma boneca uma caixa vira a cama, etc. O simbolismo está completo quando um objeto é transformado em outro e/ou quando gestos e palavras relatam e sustentam um fato ausente. Com isso a linguagem torna-se altamente propícia para evocar e criar situações. a situação do brincar abre espaço para a linguagem fluir; como que solicitando todos os recursos representativos. A linguagem, por outro lado, reforça o simbolismo do brinquedo na medida que o sustenta e o dirige. O uso de símbolos leva a representação que permite à inteligência prática ou sensório-motora tornar-se conceitual (período do pensamento objetivo-simbólico) que coincide com o fim do 2º ano de vida. Claudia Elisa Navacchia Fonoaudióloga |