Paralisia cerebral, direito à reabilitação e à cidadania
Publicada em: 08/04/2005
Por Marli Souza Cadeira de rodas à bicicleta. Colchonete a tatamis. Bolas para alongamento ao invés de chutá-las. Os primeiros, certamente não são os brinquedos prediletos numa infância. Mas, é hoje a realidade de milhares de crianças com paralisia cerebral.
Responsabilidade social com a infância, a princípio, pode remeter à garantia de educação, cultura, lazer. Mas, essas necessidades se tornam secundárias, quando crianças com distúrbios neurológicos, têm num primeiro momento, o desafio de se descobrirem como indivíduos e tornarem-se independentes, em atividades simples do cotidiano, como alimentação, higiene e comunicação.
Crianças que ao nascerem tiveram parte do sistema nervoso central lesionado, devem passar por tratamentos de reabilitação psicomotor, emocional e social.
Segundo a terapeuta da Associação Cruz Verde, entidade de apoio à criança com paralisia cerebral, Kellen Rita Gontijo, inicialmente eles se preocupam em conhecer o potencial mostrado pela criança. E ao longo do tratamento procuram valorizar esses aspectos que irão favorecer a aprendizagem.
Umas das principais metas dos programas de reabilitação é a inclusão social. "O objetivo é sempre o de inclusão, com a aceitação da sociedade e isto inclui o ingresso em escolas regulares", afirma Janice Maria Ortiz, fisioterapeuta do Grupo de Reabilitação e Habilitação Unificado (CRHAU). Ela acrescenta que "para assegurar o direito à cidadania eles trabalham com o método de educação condutiva", que é criar na criança motivação necessária para que ela se desenvolva, preparando-a para uma educação normal.
Para Gontijo, a questão da inclusão escolar torna-se uma meta, porém "tem acontecido de maneira criteriosa, pois temos observado que o sistema educacional ainda está em processo de construção ao se tratar de crianças especiais".
Apesar das dificuldades motores e cognitivas (de aprendizagem), essas crianças não deixam de ter uma infância, salienta Maria Margarida Mello, presidente do Centro Organizado de Tratamento Intensivo à criança (COTIC). "A criança tem uma história, então procuramos melhorar a qualidade de vida de cada uma, para fazer com que elas passem por todas as fases que uma criança normal passaria".
Ortiz diz que a infância dessas crianças deve ser normal como a de qualquer outra, "só que às vezes elas têm uma maneira diferente de perceber o mundo e nós procuramos desenvolver isto de maneira mais agradável possível, através de interações e brincadeiras compatíveis com a idade".
Direto à cidadania é um dos objetivos dos fisioterapeutas. "Os profissionais devem ter a consciência de que todos têm o direito à reabilitação e a serem tratados como cidadãos, sem preconceitos", afirma Ortiz.
Mello acredita que "a evolução da criança vai depender da atuação conjunta entre equipe de saúde, condutores diretos da criança e familiares".
"O maior desafio é dar assistência à família. Ela chega até nós desorientada e cheia de dúvidas. Em seguida, devemos acolhê-la para que nos aceite e confie em nós", conclui Ortiz. Para a fisioterapeuta, este trabalho de aceitação e confiança já dura longos 25 anos.
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